Nebiísmo e Mashiáh[1]

 

« E se quisesse Deus que este tão ilustre e tão numeroso auditório saísse hoje tão desenganado da pregação, como vem enganado com o pregador! .... Ecce exiit qüi seminat, seminare[2] »

Sermão do padre António Vieira na Capela Real, no ano de 1655

 

Prefácio

O nosso palco exibe uma cena de nebiísmo - ao cúmulo do messiânico, que nem a Maomé lembrou -, baseado no verídico, por consciência de causa, movimento de Sabattay Tzevy ocorrido entre 1626 e 1676 e no anterior mas não verídico - por não possuir essa consciência... nem o podia pela idade que tinha -, relativo ao rei português, O Encoberto... ao Sebastianismo do ponto de vista de o atribuir ao rei D. Sebastião como o rei messias, Rei Unios do mundo.

Em 1568 Sebastus atinge a idade, assim pensava o seu tio, para assumir o governo do Reino de Portugal... el-rei D. Sebastião morre na batalha de Alcácer-Quibir perante uma tremenda derrota no ano de 1577 provocando posteriormente a perda da independência de Portugal a favor de Castela, agora dominadora de toda a Península Ibérica. Quarenta e nove anos após a morte deste jovem rei que pelos seus actos, pela sua vocação ou ambas - não é nossa missão ajuizar este aspecto em função da ciência histórica, não temos gabarito para isso -, o Sabbatanismo surge já com corpo mas bastante distanciado geográfica e temporalmente do Sebastianismo português tendo apenas em comum o conceito messiânico e o aspecto do sectário e do secreto implícito.

Sebastus (el-rei D. Sebastião), nasce em 1554 tendo como tio e tutor o Cardeal D. Henrique o qual, dadas as suas funções, não poderia negar o seu conhecimento sobre a existência da seita messiânica em causa pelo menos e porque essencialmente movia inúmeros portugueses (cristãos novos ou não) mas e acima de tudo, contestatários do poderio eclesiástico em plena Inquisição. Dado o seu duplo cargo e nesta matéria principalmente como cardeal católico apostólico romano (igreja dominante neste país), Jesuíta e regente do reino de Portugal numa altura em que já era extensa a bibliografia sobre o Encoberto, o Rei Unios, seguramente iria isolar o seu sobrinho, o preferido e o único português herdeiro do trono. Por tudo isto é óbvio que nunca o nome de Sebastião poderia ter qualquer hipótese de interferir, por actos, ou contribuir ideologicamente, pela distância em tempo, para o nome de um movimento denominado de Sebastianista... a não ser que o Cardeal fosse vidente e apoiador do conceito do Encoberto, do Rei Unios... neste caso preferível fosse ter lido a fundo o El-Rei Selêuco de Gil Vicente.

A vinda do rei predestinado - o messias que conduziria do deserto do norte de África as tribos perdidas de Israel -, como seita, existe principiando-se aparentemente no Bandarra (de 1530 a 1540), sob o nome de o Encoberto possuindo um culto próprio e estendendo-se « muito além pelo século XIX até aos nossos dias », (In A Evolução do Sebastianismo, J. Lúçio de Azevedo, Livraria Clássica Editora, 1947), até ao hoje 2001 (afirma a FozIber).

Sebastus (Sebastião) e Sabbatay podem apresentar uma semelhança sonora mas não pretendemos caminhar por aí, pelo menos e por enquanto; não obstante há que realçar que estes nomes eram normalmente atribuídos a bebés nascido no dia de Sábado fundamentalmente quando primogénitos e essencialmente quando se sentia ou se desejava que fossem em algo predestinados… porém, esta afirmação não constitui regra.

 

Introdução

Como no teatro, a vida de um ser desenvolve-se nos bastidores, entre uma acção passiva, activa e in-activa - passiva para pensar-inculcar (análise mais ou menos conclusiva, tal nunca se completa numa vida), activa na luta por se impor e in-activa para se proteger dos embates que os congéneres, mais do que a vida em si lhe oferece, qual dádiva plena de complexos de culpa e de perseguição... - e a esta dolorosa-saborosa fase denomina-se formação da personalidade. Na realidade o ser, nos bastidores, não só se encontra a formar a sua personalidade, mas sim e acima de tudo, a criar o personagem que, preferencialmente, não mais permita a outrem a violação do seu íntimo... Ora esta manifestação, como que de um segundo 'Eu' - normal e psiquiatricamente entendível primeiro como histeria por necessidade de atenção e posteriormente por dupla personalidade (?) -, resume-se apenas ao aspecto da necessidade do ser se (querer) manifestar publicamente (mas o mais devidamente protegido: apetrechado) e daí, por comparações sucessivas, imple-comple-mentar os seus conhecimentos... isto é: aprimorar a sua capacidade de intro-extro-versão - o mais intocável possível -, garantindo a expansão da análise-destreza, sine-qüa-non. Por mais que pareça escusado é implícito afirmar que estes bastidores da formação (no sentido equilibrante ou desequilibrante), da personalidade - implícito da criação do (outro) personagem -, se estendem ao longo de toda uma vida do ser, se expandem até à morte não sendo por isso atributos de uma determinada faixa etária normal e estupidamente atribuída à durante e (ou) pós puberdade.

O outro... o outro é receptividade e distância... o outro é o equívoco[3], fundamento do pensar e do ser... o outro é a separação... « Ou l'étrange défaite ou deféction de L'identité confirmera-t-elle l'élection humaine: la mienne - pour servir, mais celle de l'Autre pour lui-même. » (E. Levinas, HAH, pág. 96 - In Les Cahiers de La nuit surveillé, Edit. Verdier, 1984, pág. 46.)

E o que é o equívoco senão o algo que tem dois (ou passível de mais) sentidos, interpretações, que lhe permite apropriar (a, em) várias formas e, por isto, o ambíguo é destreza: quanto mais fixo se lhe oferece é quanto mais se mostra errante nas afirmações, imagens e procedimentos, do que nunca. O acto de equivocar tem o fito de não se deixar classificar... O equívoco e juridicamente falando, tem alma e consciência do (e de) facto e por isso não possui factores como o desconhecer, ignorância ou extravio (desvio) enquanto no estado natural dado que a autodefesa é intrínseca (nata) em todos os seres; não obstante, o ser reprimido para além das suas forças, capacidades e repressão a isso implica, apresenta-os todos e, neste caso, encontra-se no estado «em que o melhor para ele é o diploma da eutanásia», segundo o status jurídico: a bem do equilíbrio social - dizem -, (wuaca, wuaca, wuaca - responde a FozIber).

A mentira... «Contudo, se por causa da minha mentira a verdade de Deus se tem expandido e destacado ainda mais para a Sua glória, porque é que serei ainda julgado pecador ?» (Romanos 3: 7). Um ser nasce (surge), independentemente do acto do parto e também no caso deste; um ser surge em cada instante ou a novidade a cada momento se exibe perante ele e neste surgir e ressurgir a estratégia é o exame que concede a nota segundo a destreza de cada um. O outro[4] é a mentira, (tendo como elemento indissociável o equívoco, o dúbio), que a estratégia exige para que a destreza tenha corpo que garanta a auto-afirmação, é de per si não só o contributo da formação-desenvolvimento da personalidade como e mais importante, o garante da mesma.

«A crença messiânica em um salvador, que há-de remir a pátria e exaltá-la ao domínio universal, não é como o cepticismo da nossa época nos inclina a julgar, facto somenos, na história da nossa raça, que por espaço de quase três séculos a acariciou. Quimera foi esta que, em todo esse tempo, vemos avigorar-se em cada uma das crises da nacionalidade. O patriotismo sagrado é a origem dela. Surge em um período de aparente grandeza, quando já todavia a estrela fulgente de África e da Índia entrara em declínio; afirma-se na catástrofe em que perdemos a autonomia; alenta-nos nas horas tristes da sujeição a Castela; triunfa com a independência; decresce em seguida na apatia reinante; e revive no tempo da invasão francesa, com fé igual à que animava os crédulos espíritos dos anos subsequentes ao desastre de Alcácer Quibir[5]. Só depois a ingénua crença se foi gastando, aos atritos da razão, sem que todavia de todo se desvanecesse a ideia que a produziu.

A persistência do messianismo, por tão, longo tempo, e sempre o mesmo na expressão, a animar a mentalidade de um povo, é fenómeno.... » (In A Evolução do Sebastianismo, pág. 7, J. Lúçio de Azevedo, Livraria ... ibidem).

Desta forma decidimos iniciar a nossa odisseia através do pensar, do ser-se e da luta pelo permanecer, sendo que qualquer batalha implica estratégia e... de resto o que já se disse já basta.

       

Os Ungidos [6]

 

A Unção é um fenómeno ritualístico universal no qual o azeite é o elemento primordial na maioria das regiões da Terra. D'acordo com as capacidades físicas, atmosféricas e da qualidade dos terrenos do planeta o óleo extraído de cereais, de leguminosas e de resinosas, ou o substitui ou lhe é adicionado. Acontece também que devido a outros factores incluindo os refinamentos fruto da evolução das épocas em função dos costumes (da perfumaria e da medicina), também universais, os bálsamos - compostos pelo menos de um dos primeiros se não de ambos ou de todos os já focados, podendo conter por acréscimo materiais orgânicos, inorgânicos ou ambos -, formam poções geralmente para fins adicionais mas sempre dentro do sagrado. Um caso típico, descrito na Bíblia, exibe-se em Marcos 14: 1 - 9: «.... 3 E, enquanto ele estava em Betânia, na casa de Simão, o leproso, ao estar recostado durante uma refeição, veio uma mulher com um vaso de alabastro com óleo perfumado, nardo genuíno, muito dispendioso. Rompendo o vaso de alabastro, começou a derramá-lo sobre a cabeça dele. 6 Mas Jesus disse: "Deixai-a. Por que procurais causar-lhe aflição? Ela fez uma acção excelente para comigo. 8 Ela fez o que pôde; antecipou-se em me ungir para a morte derramando óleo perfumado sobre o meu corpo. 9 Deveras, eu vos digo: Onde quer que se pregarem as boas novas em todo o mundo, o que esta mulher fez também será contado em lembrança dela."». A clareza deste texto, também exposto em Mateus 26: 6 - 13, adquire a simbológica do poder concedido ao ungido na descrição de João 12: 1 - 3, não só por esta unção assentar numa ritualística com o fito de preparar o ser para a morte (eminente), mas porque permite distinguir de uma anterior que é a do vidente e que seguramente já lhe tinha sido conferida, como veremos.

Nos Evangelhos não consta por quem, ou se alguma vez foi baptizado João o baptista porém se ele era essénio teve que obrigatoriamente o ser para poder ingressar na comunidade facto de somenos importância, por ora. A verdade é que o vidente no poder indiscutível que a sua unção lhe conferia baptiza o Jesus de Nazaré e foi na altura em que o Jesus saiu das águas que o Espírito Santo, como pomba, pairou sobre a sua cabeça e ouviu-se uma voz afirmar: «Este é o meu filho, o amado, a quem tenho aprovado.», o que é mais do que suficiente para confirmá-lo ungido perante Deus, a comunidade e perante toda a Terra (Mateus 3: 13 - 17). Como tal, dentro do espírito de qualquer unção, o ungido dirigiu-se para o deserto... para a iniciação que este acto implica (tal como um saniazin)... o Jesus acabava de ser ungido pela palavra pronunciada sobrenaturalmente perante uma presença sobrenatural: o Espírito Santo.

A unção simboliza o espírito do deus garantindo deste modo o expandir da sua Luz (e) de Vida; a unção infunde a presença-acção divina. Universalmente e em todos os tempos os povos tiveram o costume de ungirem as suas pedras comemorativas, tal é o caso relativo a Jacob a quem o anjo de YhoWaH (Jeová ou Javé, como pretendam - o hebraico não tem vogais, apenas semi-consoantes), lhe surgiu durante o sono, aspergindo azeite sobre a pedra que lhe servia de cabeceira e deste modo ungindo-o, a fim de lhe manifestar a presença-acção de Deus e o selar para a missão que teria de desenvolver: a criação das doze tribos que levariam o seu cognome Israel (Génesis 28: 16 - 18). Difícil é que não lhe tivesse besuntado a cabeça ( sal 133: 2), mas a verdade é que o hábito de ungir pessoas (independentemente de por terem sido condenadas à morte, ou se encontrarem moribundas), é de longuérrima data. Do mesmo modo se ungiam altares - acumulações de pedras, madeiras ou apenas terra amontoada -, tal como grandes edifícios, tendas, tabernáculos, sepulturas depois de deposto o corpo, rios, lagos, quedas de água, etc., enfim todos os seres de todos os reinos; o mesmo acto prossegue nos dia de hoje ... e muito bem!

No cerne de toda esta actividade os videntes surgiram e têm surgido muitas vezes de uma forma irregular tal como que por método[7] como líderes carismáticos, fazendo paralelo (sempre) e frente (sempre que se impunha e se possa vir a impor), à classe dominante com a aceitação mais ou menos plena (quando não total oposição), dos anciães (parlamento), do povo. Os videntes suscitaram (como hoje suscitam), tanta crítica quão entusiasmo e este facto é tão universal que se estende não só a todo o planeta como a todas as épocas sendo que ainda hoje as análises e conclusões sobre este fenómeno são díspares ao ponto de onde uns não verem mais do que um entusiasmo pagão (profano, satânico, jocoso, histérico, etc.), outros observam (investigam) um conjunto de forças essenciais como manifestação do algo que transcende (do divino). Mas... conclusões, só começarão a surgir no dia em que a depreciação de uns e a crendice de outros der espaço para uma investigação científica a qual implica uma boa dose de indiferença, a necessária para o distanciamento do objecto em análise.

 

A Mensagem

Tem-se pretendido destrinçar o vidente do profeta pela diferença estilística do documento encabeçado pelo seu nome; bom, talvez... mas por norma universal são os discípulos que escrevem e nunca o vidente[8]: no cristianismo Jesus é um exemplo disso, mas para quem não acredite na sua existência sempre tem o profeta Maomé. Estilo de escrita como? Por um parecer apresentar o desespero apocalíptico como cerne da sua pregação, isto é, o exibir e o usar a catástrofe planetária com o fito de chamar à razão a humanidade? Quem assim pensa está redondamente equivocado e, o pior, é que quem isto ensina é mentiroso!

Quanto ao vidente: «Ora, havia um homem de Benjamim, e seu nome era Quis, filho de Abiel, filho de Zeror, filho de Becorate, filho de Afia, benjaminita, homem poderoso em riqueza. 2 E sucedeu que ele tinha um filho de nome Saul, jovem e bem-parecido, e não havia homem dos filhos de Israel que fosse mais bem-parecido do que ele; dos seus ombros para cima era mais alto do que todo o povo.

3 E perderam-se as jumentas pertencentes a Quis, pai de Saul. De modo que Quis disse a Saul, seu filho: "Por favor, toma contigo um dos ajudantes e levanta-te, vai procurar as jumentas." 4 E ele foi atravessar a região montanhosa de Efraim e atravessou a terra de Salisa, e não acharam. E foram atravessar a terra de Saalim, mas elas não estavam. E foram atravessar a terra dos benjaminitas, e não [as] acharam.

5 Eles mesmos entraram então na terra de Zufe; e Saul, da sua parte, disse ao seu ajudante que estava com ele: "Vem deveras e voltemos, para que meu pai não deixe de se preocupar com as jumentas e realmente se inquiete por nós." 6 Mas ele lhe disse: "Por favor, eis que há um homem de Deus nesta cidade e o homem é tido em honra. Tudo o que ele diz se cumpre sem falta. Vamos para lá agora. Talvez ele nos possa informar sobre o caminho em que temos de andar." 7 Então Saul disse ao seu ajudante: "E se formos, que traremos ao homem? Pois o próprio pão já desapareceu dos nossos receptáculos e não há nada que possamos levar como dádiva ao homem de Deus. Que é que temos connosco?" 8 Assim, pois, o ajudante respondeu mais uma vez a Saul e disse: "Eis que se acha um quarto de siclo de prata na minha mão, e eu hei de dá-lo ao homem de Deus e ele há de dizer-nos o nosso caminho." 9 Antigamente, em Israel, era assim que o homem falava ao ir buscar a Deus: "Vinde e vamos ao vidente." Pois o profeta de hoje costumava ser chamado outrora de vidente. 10 Saul disse então ao seu ajudante: "Tua palavra é boa. Vem deveras, vamos." E eles se foram à cidade onde estava o homem de Deus.

11 Indo eles para cima pela subida da cidade, encontraram umas moças que saiam para tirar água. Disseram-lhes pois: "Está o vidente neste lugar?" 12 Responderam-lhes então e disseram: "Está. Eis que está na vossa frente. Apressai-vos agora, porque ele veio hoje à cidade, pois há hoje um sacrifício no alto, para o povo. 13 Assim que entrardes na cidade ireis logo achá-lo antes de ele subir ao alto para comer; porque o povo não pode comer até que venha, visto que é ele quem abençoa o sacrifício. Só depois é que os convidados podem comer. E agora subi, porque a ele - agora mesmo o achareis." 14 Por conseguinte, subiram à cidade. Entrando para o meio da cidade, ora, eis que vinha Samuel ao seu encontro para subir ao alto.

15 Quanto a Jeová, havia destapado o ouvido de Samuel no dia antes de chegar Saul, dizendo: 16 "Amanhã, por volta desta hora, enviar-te-ei um homem da terra de Benjamim, e tu terás de ungi-lo como líder do meu povo Israel; e ele terá de salvar meu povo da mão dos filisteus, e porque vi meu povo, pois o seu clamor tem chegado a mim." 17 E o próprio Samuel viu a Saul, e Jeová, da sua parte, respondeu-lhe: " Eis o homem de quem te disse: 'É este quem manterá meu povo dentro dos limites.' "

18 Saul aproximou-se então de Samuel no meio do portão e disse: "Por favor, dize-me deveras: Onde é que é a casa do vidente?" 19 E Samuel passou a responder a Saul e a dizer: "Eu sou o vidente. Sobe diante de mim ao alto, e hoje tereis de comer comigo e eu terei de mandar-te embora pela manhã e te comunicarei tudo o que há no teu coração.' 20 Quanto às jumentas que perdeste há três dias, não fixes nelas teu coração, pois foram achadas. E a quem pertence tudo o que é desejável de Israel?' Não é a ti e a toda a casa de teu pai?" 21 A isso Saul respondeu e disse: "Não sou eu benjaminita da menor das tribos de Israel e a minha família a mais insignificante de todas as famílias da tribo de Benjamim? Então, por que me falaste uma coisa destas?"

22 Samuel tomou então Saul e seu ajudante, e levou-os ao refeitório e deu-lhes um lugar à cabeceira dos convidados; e havia cerca de trinta homens. 23 Mais tarde Samuel disse ao cozinheiro: "Entrega deveras a porção que te dei, da qual eu te disse: 'Põe-na à parte contigo."' 24 Então, o cozinheiro retirou a perna e o que havia nela e a pôs diante de Saul. E ele prosseguiu, dizendo: "Eis o que se reservou. Põe-no diante de ti. Come, porque se reservou para ti para o tempo designado, a fim de comeres com os convidados." De modo que Saul comeu naquele dia com Samuel. 25 Depois desceram do alto para a cidade e ele continuou a falar com Saul no terraço da casa. 26 Levantaram-se então cedo, e assim que subiu a alva sucedeu que Samuel passou a chamar Saul ao terraço, dizendo: "Levanta-te deveras, para que eu te mande embora." Saul levantou-se, pois, e ambos, ele e Samuel, saíram portas afora. 27 Descendo eles na beirada da cidade, disse Samuel a Saul: "Dize ao ajudante que passe adiante de nós" - de modo que passou adiante - "e no que se refere a ti, fica agora parado para que eu te deixe ouvir a palavra de Deus".

 

10 Samuel tomou então o frasco de óleo e o despejou sobre a sua cabeça, e beijou-o e disse: "Não é porque Jeová te ungiu como líder da sua herança? 2 Hoje, quando te afastares de mim, hás de encontrar dois homens perto do túmulo de Raquel, no território de Benjamim, em Zelza, e eles hão de dizer-te: 'Acharam-se as jumentas que foste procurar, porém, eis que teu pai abandonou o assunto das jumentas e se inquieta por vós, dizendo: "Que farei a respeito do meu filho?"' 3 E de lá tens de passar mais adiante e chegar até a árvore grande de Tabor, e ali terão de vir ao teu encontro três homens subindo até o Deus em Betel, um carregando três cabritinhos, e outro carregando três pães redondos, e outro carregando uma grande talha de vinho. 4 E eles certamente te perguntarão sobre o teu bem-estar e te darão dois pães, e tu terás de aceitá-los da sua mão. 5 É depois disso que chegarás ao morro de Deus, onde há uma guarnição de filisteus. E deve acontecer, por volta do tempo de chegares lá à cidade, que hás de encontrar-te com um grupo de profetas descendo do alto, e na frente deles um instrumento de cordas, e pandeiro, e flauta, e harpa, falando eles como profetas. 6 E o espírito de Jeová há de tornar-se activo em ti, e hás de falar como profeta junto com eles e ser transformado em outro homem. 7 E tem de dar-se que, vindo a ti estes sinais, faze para ti o que a tua mão achar possível, porque o Deus está contigo. 8 E tens de descer na minha frente a Gilgal; e eis que desço a ti para oferecer sacrifícios queimados, para ofertar sacrifícios de participação em comum. Deves esperando por sete dias, até a minha vinda a ti, e certamente te deixarei saber o que deves fazer."

9 E sucedeu que, assim que virou o ombro para se afastar de Samuel, Deus começou a transformar-lhe o coração em outro; e naquele dia passaram a cumprir-se todos estes sinais. 10 Assim, foram dali ao morro, e eis que vinha ao encontro dele um grupo de profetas; o espírito de Deus tornou-se imediatamente activo nele e ele começou a falar como profeta no seu meio. 11 E sucedeu que, vendo-o todos os que já o conheciam, eis que profetizava com os profetas! Por conseguinte, o povo dizia, um ao outro: "Que é isto que aconteceu ao filho de Quis? Está Saul também entre os profetas?" 12 Respondeu então um homem de lá e disse: "Mas quem é o pai deles?" É por isso que se tornou expressão proverbial: "Está Saul também entre os profetas?"

13 Por fim acabou de falar como profeta e chegou ao alto. 14 Mais tarde, o irmão do pai de Saul disse tanto a ele como ao seu ajudante: "Aonde fostes?" A que ele disse: "Procurar as jumentas, e fomos indo para ver, mas elas não se achavam. De modo que fomos ter com Samuel." 15 Então disse o tio de Saul: "Por favor, conta-me deveras: Que foi que vos disse Samuel?" 16 Saul, por sua vez, disse a seu tio: "Ele nos informou inequivocamente que as jumentas foram achadas." E não lhe contou o assunto do reinado de que Samuel havia falado.

17 E Samuel passou a convocar o povo a Jeová em Mispá. 18 e a dizer aos filhos de Israel: "Assim disse Jeová, o Deus de Israel: 'Fui eu quem fez Israel subir do Egipto e quem vos foi livrar da mão do Egipto e da mão de todos os reinos que vos oprimiam: 19 Mas vós é que rejeitastes hoje o vosso Deus que foi para vós um salvador em todos os vossos males e vossas aflições, e fostes dizer: "Não, mas é um rei que deves pôr sobre nós." E agora, tomai vossa posição perante Jeová, segundo as vossas tribos e segundo os vossos milhares.'"

20 Consequentemente, Samuel fez chegar perto todas as tribos de Israel e veio a ser seleccionada a tribo de Benjamim. 21 Então fez chegar perto a tribo de Benjamim, segundo as suas famílias, e veio a ser seleccionada a família dos matritas. Finalmente veio a ser seleccionado Saul, filho de Quis. E foram procurá-lo, e ele não podia ser achado. 22 Por isso indagaram mais de Jeová: "Já chegou o homem para cá?" A isso Jeová disse: "Eis aí está, escondido entre a bagagem." 23 Foram assim correndo e o trouxeram de lá. Quando ele tomou sua posição no meio do povo, era mais alto do que todo o resto do povo, dos seus ombros para cima. 24 Samuel disse então a todo o povo: "Vistes aquele que Jeová escolheu, que não há quem lhe seja igual entre todo o povo?" E todo o povo começou a gritar e a dizer: "Viva o rei!"

25 Samuel falou então ao povo sobre a prerrogativa legítima do reinado, e escreveu-a num livro e depositou-o perante Jeová. Depois, Samuel mandou todo o povo embora, cada um para a sua casa. 26 Quanto ao próprio Saul, foi para a sua casa em Gibeá e homens valentes, cujo coração Deus havia tocado, passaram a ir com ele. 27 Quanto aos homens imprestáveis, disseram: "Como é que este nos salvará?" Consequentemente, desprezaram-no e não lhe trouxeram nenhum presente. Mas ele continuou como alguém que ficou sem fala.» (I Samuel cap. 9 e 10).

 

 A ThaNaKh[9] exibe e atesta deste modo, o que é, o que faz e como procede o vidente, tal como o que lhe sucede quando é banido pelo povo e, se apanhado, o modo como o maltratam ou o condenam apenas pelo simples facto de o não quererem ouvir (tudo isto aconteceu, tem acontecido e, pelos vistos, tende a permanecer).

A discrepância entre os termos vidente e profeta, abismal no ocidente, não existe na língua hebraica tal como em todo o Oriente, África, no meio dos índios e dos múltiplos outros povos da América do Norte, Centro e Sul tal como no mundo aborígene da Austrália, Nova Guiné e demais arquipélagos; isto é, tal torna-se cada vez mais um preconceito apenas teológico nascido muito antes do cristianismo, acalentado nos braços da Inquisição, demagógico e essencialmente matéria de falsidade demonstrando, fundamentalmente, a parca cultura ainda existente sobre a espiritualidade.

«No hebraico Nabah significa: anunciar, profetizar, prever eventos futuros em nada diferenciado do significado de adivinhação e, na generalidade, o profeta tem a missão de ensinar a vontade do divino. Esta palavra é de origem caldaica possuindo masculino e feminino, isto é, profeta e profetiza. Interessante é que ela deriva do nome de um deus caldaico Nebó que se supõe paralelo ao deus Mercúrio, por ambos serem os intérpretes do Deus (Isaías 46: 1). Hhazah (razáh) - também no hebraico -, significa ver, significa tanto vidente como profeta (Hhozê) - porque tanto um como o são o mesmo -, significa contemplar uma visão especialmente aplicada à profecia ou uma revelação recebida por visão; tal como o anterior este termo também é de origem caldaica. Este fenómeno da visão está ligado ao acto do homem contemplar deus», à prática da meditação (In Analythical Hebrew And Chaldee Lexicon, Benjamin Davidson, Regency Reference Library, Zondervan Publishing House).

A fim de terminar esta parte da exposição, acrescentaremos apenas que tanto na Literatura Hebraica em geral como na Literatura Rabínica em particular, se divide a Bíblia em três partes a saber: Lei (Thoráh), Profetas (Nabiím) e Escritos (Ketôbím), dividindo-se os Profetas em anteriores e posteriores e nunca em videntes e profetas. Por fim estas divisões não são estanques, interpenetram-se umas nas outras e os registros prosseguem estendendo-se até e pela actualidade (Manual de História de La Literatura Hebrea, David Gonzalo Maeso, Editorial Gredos - Madrid, 1960). Nada é estanque porque até aqui ainda nada cessou e quem afirmar que a vidência, a profecia, terminou é mentiroso... é ignóbil! O mundo continua e, portanto, tudo permanece.

 

Os Verdadeiros e os Falsos Profetas

Numa passagem dos Evangelhos os apóstolos aproximaram-se de Jesus queixando-se de que um homem andava pregando por ali em nome dele. Jesus advertiu que o deixassem porque quem falava a favor dele nunca poderia ser contra ele.

Anunciar e pregar são a mesma coisa (sinónimo); ora, só prega ou anuncia quem está - por o sentir e porque o sabe porque o seu espírito o move -, imbuído do espírito do deus e este não é mais nem menos do que um ungido e também baptizado porque o termo grego significa, e fundamentalmente, aquele que assumindo novas (ou complementares) ideias as decide viver em pleno[10]. Buddha afirmou: «'Não devemos acreditar numa coisa dita, meramente porque foi afirmada; nem em tradições apenas porque provêm de longa antiguidade; nem em rumores; nem nos escritos dos sábios apenas por terem sido escrito por eles; nem em algo que suspeitamos serem fantasias apesar de sentirmos que nos foram inspirados por algum Deva (isto é, presumindo inspiração espiritual); nem por inferências surgidas por qualquer acaso por nós provocado; nem porque aparente ser uma necessidade analógica; nem porque possui a autoridade dos nossos professores ou mestres. Mas devemos acreditar quando um escrito, doutrina, ou uma afirmação corrobora com a nossa razão e consciência. Por isto', disse Buddha concluindo, 'Eu ensinei-vos a não acreditarem meramente porque ouviram, mas somente quando acreditais com a vossa consciência e, neste caso, devereis actuar de acordo e abundantemente.'». E quem assim o faz actuando em pleno está baptizado e baptiza-se tantas vezes quantas na vida necessitar... se o que pecar (o que em grego significa errar o alvo) retomar as rédeas da situação não faz mais do que uma confirmação do seu baptismo e esta é a resultante do seu reconhecimento de e do facto ao qual se chama confissão e pelo actuar confirma e pelo confirmar a Iniciação (mutação do ser), surge... passada a prova os Portais se abrem.

Em Actos 2: 17, 18 afirma-se: «'Nos últimos dias', diz Deus, 'derramarei do meu espírito sobre toda a sorte de carne e os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão e os vossos jovens terão visões e os vossos anciãos terão sonhos; e até mesmo sobre os meus escravos[11] e sobre as minhas escravas derramarei o meu espírito naqueles dias e eles profetizarão.'».

A profecia do Encoberto não pode acarretar a culpa de quem a denominou de Sebastianista e, essencialmente, de quem colocou um Sebastião imberbe (se não só pela idade pelo menos por conhecimentos capaz de entender-interiorizar), nestas andanças. A profecia do Rex Unios (literalmente, segundo o Caldaico (fenício): causa unificadora) clama à Tábua de Esmeralda que possui um duplo sentido, a saber: o temporal e o eterno[12], ambos em função do nosso conceito de tempo. Stº Alberto Magno deixou-nos a sua nota histórica relativa à Tábua de Esmeralda nos seguintes termos: «Versio Tabulae Smaragdinae Hermetis qualis est vulgo Latino idiomate, et Phoenicio expressa circumfectur.». Sem mais delongas, apresenta-se uma Tábua traduzida em Latim do Caldaico[13]:

1.              Verum, sine mendacio, certum et verissimum.

2.              Quod est inferius est sicut (id) quod est superius,

3.              Et quod est superius est sicut (id) quod est inferius

4.              Ad perpretanda miracula rei unius.

Traduzido do fenício o texto possui uma forte e simples conotação social (se desejardes, sócio-política), a qual com olhos de terra é:

Verdade sem mendigar[14], certo e verdadeiro.

O que é inferior é como (igual ao que) é superior,

E o que é superior é como (igual ao que) é inferior,

até que se realizem os milagres (inovações, mudanças, maravilhas)

do rei ( rei=coisa) unificadora (uno, única).

Esta Tábua aborda o supremo desejo da igualdade entre os seres contra o acto do dominador-dominado, contra qualquer forma hierárquica expressando em si a utopia humana e paraleliza-se ao contra-senso (acto contraditório), popular-tribal exibido no documento bíblico atrás exposto (I Samuel 10: 17 - 19). O texto da Tábua visa realmente o simbolismo tipológico (de espaço) por se reportar ao que está acima e ao que está abaixo, mas este cartesianismo nem pode ser garantido pelo simbolismo mitológico (a função tempo)... o acima e o abaixo estabelecem apenas uma linha vertical o que não é suficiente para a criação de um plano o que o cartesiano implica... a não ser que o texto se pronuncie sobre um espaço acima e um espaço abaixo, mas tal é não só desnecessário como inútil e excessivo - tal como todos estes adjectivos, isto é, o texto vale de per si, pela sua visão terrestre materialista.

A história bíblica de Abel e Caim é por alguns considerada mitológica e por outros tipológica tudo isto dependendo do ponto de vista por onde se observa, mas a análise não pode ser limitada por um aspecto mas e sempre por comparação do máximo de dados adquiridos d'onde um ponto de vista só pode induzir num inevitável erro. A história bíblica a que nos reportamos é mitológica no que concerne ao tempo e à história se a lermos apenas pelo ponto de vista da inimizade e neste caso mortal, entre irmãos pelo facto de adorarem o mesmo deus, mas não «do mesmo modo» como se afirma na pág. 32 de Meditações sobre os 22 Arcanos Maiores do TARÔ (Edições Paulinas, colecção amor e psique, 1989). Caim, como agricultor, ofereceu para o holocausto sobre o seu altar as melhores verduras e frutos da sua produção enquanto Abel, como pastor, ofereceu ao mesmo deus sobre o seu altar os mais gordos animais das suas manadas. Deus achou aceitável a oferta de Abel e desgostou-se da de Caim seu irmão[15] (Génesis 4), daí e por isto Caim matou Abel... Realmente o Urphänomen (o arquétipo) de Goethe está patente no aspecto tipológico (o do espaço) e não só no mitológico (como um caso particular dum determinado tempo... isolado); aliás neste relato é impossível dissociar-se o mitológico do tipológico pelo simples facto de que ele envolve mais do que a adoração a um deus - que, seja ele qual for, sempre omnipotente, omnisciente e omnipresente, nunca iria preterir frutos da agricultura em favor de gado, no mínimo aceitaria igualmente as dádivas e no máximo teria em consideração a intenção dos ofertantes... mas isto transcende-nos porque ultrapassa a mensagem do texto afim. Na realidade o pequeno relato de Abel e Caim traduz a primeira (ou é o resumo de várias em uma) tentativa do pastoril suplantar a agricultura e pelo querer suplantar acabou por dominar ao ponto de apenas entre os pastores se passar a seleccionar chefes e reis, quanto aos agricultores chegaram a uma sujeição, ao cúmulo da escravatura... ora esta revolução deu-se à escala mundial e documentos antigos, sagrados, históricos, literários, judiciais, etc. o atestam, da mesma forma inúmeras e bem fundamentadas teses sobre esta matéria o demonstram ao ponto do indiscutível.

        Volvendo à Tábua de Esmeralda e sabendo-se que a luta pela igualdade implica, como é óbvio, a luta contra sistemas hierárquicos, há que ter em consideração que o documento não convida à luta; esta e pela igualdade sempre existiu acabando sempre no suplantar de alguém ficando tudo no mesmo. A Tábua invoca o saber esperar «a coisa unificadora»... o que na tradição cristã se reporta ao regresso do Cristo em nada deriva da espera[16] judaica do Messias como e para outros, a do Encoberto - o Unificador. Esta espera é de sobremodo universal quer sejam budistas, hinduístas, muçulmanos, índios, africanos, espíritas, ocultistas, ubandistas, etc., derivando apenas o nome aplicado a esse Ser.

Entretanto podemos para nossa felicidade cantar no dia a dia os nossos sofrimentos, as nossas tristezas... as nossas infelici e infideli dades:

«Beija-me com os beijos da tua boca,

porque as tuas expressões de afecto

são melhores do que o vinho.

Os teus óleos são de grande fragrância.

O teu nome é como um óleo que se despeja.

Por isso é que te amaram as próprias donzelas.

Puxa-me contigo; corramos.»

In Bíblia, Cântico dos Cânticos, Cantares de Salomão, ou na tradução literal e real: Os Teus Afectos, caput 1, vs. 1 - 4

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Com tanta porcaria que nos circunda é invariavelmente sobre os videntes, exorcistas, médiuns, etc., que muitos pretendem cair, do mesmo modo que muitos de eles se valem; não obstante maltratados por outros tantos que por ali se safaram já desenganados por médicos - incapazes de descobrirem a origem dum problema -, abandonados e reduzidos a míseros dias de vida -… passaram-se esses dias e estão vivos; outros encontram-se há anos, incrustados em manicómios pela sexo-mania, maníaco ou depressivos, toxico-dependentes e outros tantos rótulos cientificamente inúteis... mas laboratorialmente rentáveis; por isto, até os ervanários, naturopatas e afins, também se viram e vêm-se envolvidos na condenação por intentarem o incurso nos mistério do além mas e acima de tudo, por conseguirem resultados sem necessidade dos além-impórios do artificial; é puro mau perder. Percorrendo todo o campo científico, os múltiplos cursos e as derivadas especialidades - não falando da política, jurisprudência e magistratura, que já aberram -, prédios caem, pontes desabam sendo tanta a trampa - como se já não bastasse a miséria, os sem-abrigo, os marginalizados e a fome -, mais do que os inúmeros processos averiguatórios abertos com mínimas conclusões. Os bruxos permanecem sobre perseguição mas e porque o são, escorregam entre os dedos da cegueira da justiça.

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Bandarra surge como um grandiloquente teólogo; plenamente constituído em letras lia e escrevia sendo isto muito na condição do seu tempo. De memória agudíssima sabia de cor a Bíblia como é uso entre judeus e do mesmo modo, para tal dispensou - como é usual entre os desse povo -, oito ou nove anos de estudo e por tudo isto, por toda esta atitude, passou a ser para os judeus encobertos de Trancoso como um rabbi, ofício tão humilde como o comparável à de mecânico em relação aos mais afamados doutores da lei. À sua pobre oficina de sapateiro vinham consultá-lo sobre a interpretação dos textos... os que lhe solicitavam explicações recebiam-nas com o respeito devido aos oráculos. J. Lúçio de Azevedo, In A Evolução do Sebastianismo, aborda um provável proveito material pelas suas consultas e pela forma como o admirou Francisco Mendes, «lhe ir levar algum refresco desta terra.».

O Encoberto ultrapassa Bandarra no sentido em que ele não o inventou, é-lhe muito anterior e advindo de longas distâncias sendo a mais próxima de Portugal, pela completude, a Britânia do círculo Arturiano. Muito mais, que o Encoberto viesse mais tarde a ser aplicado a D. Sebastião... esta nem na cabeça de Bandarra caberia. No cerne da monarquia de Castela - a dominante -, pelo alvoroço de espíritos preocupados com a nacionalidade viram surgir (cerca de 1520), textos proféticos uns exumados e atribuídos a Santo Isidoro - Arcebispo de Sevilha (séc. VII) -, no pleno tempo dos Godos, e outros pertencentes às tradições de Merlin. Não satisfazendo de forma alguma a monarquia de Carlos V de Castela e prevendo-se o seu desastre, a Ibéria encontrava-se agora destinada ao domínio de um príncipe português o qual cingiria a coroa de todo o império pertencente a ambas as partes... ao contrário e trinta anos depois, é Portugal que sofre o revés castelhano em 1580 data em que perde a sua independência.

« Esto sera al mês doutubre,

Esta espritura no erra,

Avera la vitorya en guerra

Un rey que non se descubre. »

(Saído em estampa em Valência, Coplas de frei Pedro de Frias).

Todo o processo do encoberto é anterior e fora do pensamento de Bandarra e se em 1532 (começaram ou continuaram), a surgir em Espanha judeus afirmando-se messias, apelando-se descendentes de D. João o filho dos reis católicos, todos afirmando-se o Encoberto redivivo. Nisto apenas encontramos um embrião dentro da Ibéria para o fenómeno afim mas comum ao ponto do universal - mistura-se o mundo com o Mundo... Afinal somos todos seres cheios de anseio pela liberdade através da justiça.

Se portugueses e judeus já comungavam dos mesmos anseios no que respeitava ao messianismo, tais vão tornar-se mais plenos com a perda da independência de Portugal e se já se escamoteavam as divinas escrituras para prever a vinda do encoberto, agora com Portugal nas mãos de Castela o afinco pela matéria atinge as raias do inédito, o povo indagava, enquanto os intelectuais e o prelado, ao mais alto nível se resfolgava sobre o assunto investigando os livros bíblicos de Esdras a Daniel e fundamentalmente estes dois.

Em toda a história da humanidade o vidente sempre se circunscreveu a uma região e actuou num perímetro sendo tal atitude comum em todos os povos, do mesmo modo Bandarra recebia as pessoas, não ia, tal como não escrevia... os seus companheiros (ou discípulos) o faziam. O mesmo aconteceu com Nostradamus, Merlin - e outros. O Jesus, o Cristo, o confirmou quando alegou que só tinha sido enviado aos judeus e não a outro povo. Ora este como ungido (cristo, messias ), em nada derivava em comportamento dum profeta, dum vidente, a não ser pelo facto de vir comunicar que ele era o rei que haveria de surgir e que o seu reino não seria conforme os desta terra mas divino... tal contrariou em absoluto o povo hebreu que tinha entre mãos problemas prementes a nível de governo o que passava inevitavelmente pela independência.

Real e humanamente Bandarra encontrava-se desconhecedor dos Arianos não obstante nas Trovas refere-se a este tema e segundo J. Lúçio de Azevedo «Plausivelmente reminiscência de Santo Isidoro, cujos supostos vaticínios deviam ter chegado a Portugal com os de Pedro Frias, nos quais também se encontra a referência. Deste último veio a menção de Turcos e Venezianos, que todavia o Bandarra trata de modo diferente, causando embaraço aos discípulos, que estranhavam a divergência:

‘Em campo de venezianos

Se dará tão grã batalha

Que entre Turcos e Cristianos

Crescera clarins e malha;

Morreram no disbarate

Os duzentos mil Cristianos

E sem número pagamos

O Rei dará xeque e mate.’»

Entretanto (em 1626) no norte da Europa, a oriente de todos estes acontecimentos, um novo messianismo surgia tendo como protagonista Sabbtaï Tzevi. O histórico messiânico hispano-português, advindo ou não da Britânia - da corte Arturiana -, surge agora num outro palco a Polónia mas e mais precisamente tem o seu desfecho no arrombar das portas da sinagoga de Portugal (nome que lhe foi atribuída por vontade dos Judeus desse país), nesse país para que o messias Sabbataï se impusesse e fosse reconhecido, como tal, perante a comunidade judaica... Também Sabbatay Tzevy causou o embaraço tanto à comunidade judaica como à cristã que esperança tinha nele... abdica, entrega-se ao governo turco e torna-se muçulmano. Assunto encerrado?

        Em pleno 1695, reinado de D. João V em Portugal, o descontentamento pelos negócios públicos favorecia a difusão da seita ao ponto (códice 402 registo da Biblioteca Nacional), de um documento expor como título: Exame preciso dos fundamentos dos sebastianistas, nas misérias em que se acha Portugal no ano de 1712. Foi neste período que um estrangeiro, descrevendo o estado mental da Nação, dizia estarem metade dos portugueses, que eram cristãos novos, à espera do Messias, a outra metade à espera de D. Sebastião.

Mas e o que se dizia de Espanha na mesma época... em 1640 Portugal retoma a sua independência com D. João IV, homenageia o profeta Bandarra com uma administração de capela através do directo descendente Miguel Dias Bandarra. Os ossos do vidente são buscados em Trancoso e transferidos para um túmulo decente. Pedra tumular, túmulo d'acordo, tudo é posto a preceito no ano da libertação de D. João IV o ano da ressurreição de Portugal. Excelente documento do espírito reinante é a obra célebre de António de Sousa Macedo - diplomata, habituado ao viver das cortes desenvolve em cinquenta e cinco páginas, apenas de apêndice, as profecias e os prodígios acontecidos em Portugal -, Lusitania liberata, que em 1645 saiu à luz em Londres... Mais documentos plenos de entusiasmo e esperança se espalham sobre o cumprimento das profecias em Portugal expandindo-se por toda a Europa exceptuando o facto de que o Papa Urbano VIII não consentiu, sobre este assunto, receber o prelado português. Quanto a Sabbataï Tzevi não teve um fim honroso... excomungado pelo seu povo, faz pacto com o povo Turco e deste modo termina asquerosamente a sua vida com poderes que um judeu, na altura e naquele país não poderia possuir. Muitos foram os judeus e cristãos novos - portugueses, espanhóis e holandeses -, os alimentadores desta fé mas... os videntes é que apanham com estas bordoadas dos pretensos messiânicos; realmente a humanidade, cá deste lado - pelo menos -, não aprende e ao que parece continua a não querer aprender, com Abraão, Jacob, Moisés e tantos outros. Vidente é uma coisa totalmente diferente de Messias... Maomé - e como este muitos e muitos outros -, o sabia e não teve veleidades sobre esta matéria!

Quanto a nós... bom, vamos prosseguir desenvolvendo este material tomando em consideração o grande investigador Gershom Sholem apelando, aos interessados nesta matéria, a lerem o seu documento Sabbataï Tzevi Le Messie Mystique (Collection « Les Dix Parolles », Essais, edit. Verdier). Entretanto e à guisa de conclusão sobre Os Verdadeiros e Falsos Videntes limitamo-nos a deixar à Vossa consideração aconselhando a que, pelo menos por agora, não se executem juízos precipitados; por outro lado o vidente de Trancoso, Bandarra, surgiu como tal (nunca como um messias), comportava-se de acordo e a sua fama ultrapassou-o ao ponto de muitas afirmações lhe terem sido colocadas sob o seu nome... coisas que nem lhe passaram pela cabeça, não obstante sendo inegável a sua profunda fé na vinda de um Rei unificador talvez assente num erróneo entendimento do rex unius da Pedra de Esmeralda. Influenciado? Porque não... infelizmente tal acontece a todos os níveis principalmente quanto gente de elite nos mais variegados assuntos e meios passam a rodear e acima de tudo numa altura em que a autodefesa era indiscutível pelo perigo da denominada Santa Inquisição. Padre António Vieira, férvido crente, José Agostinho de Macedo, incrédulo, mas contribuindo de sobremodo para elevar e divulgar tanto a polémica como a mensagem, Dr. Álvaro Cardoso, padre Bartolomeu Rodrigues, Francisco Mendes, Pero Álvares, Dr. Gil Vaz Bugalho, todos estes últimos e muitos outros que por 'ora não citamos - nem sentimos necessário -, faziam parte do círculo da plena fé no vidente de Trancoso.

 

Legendas das imagens:

Imagem 1 – Crucifixo e Chave, fotografia de Yhonathannah

Imagem 2 – D. Sebastião, O Encoberto

Imagem 3 – Mosaico do Baptismo de Cristo no baptistério dos Arianos (séc. V)

Imagem 4 – Piero della Francesca : Baptismo de Cristo; cerca 1445-1450

Imagem 5 – Masolino: Baptismo de Cristo – cerca 1435

Imagem 6 – Andrea Del Verrocchio – O Baptismo de Cristo – cerca 1470

Fundo – Pietro Cavallini: São João Baptista – cerca 1293

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[1] Nebiísmo, de Naby, origem do termo nabo(s) no português, isto é, os videntes e os Máshiáh, isto é, os ungidos com o azeite, em grego os cristos.

[2] Bíblia (Mateus 13: 3). « ... "Eis que um semeador saiu a semear;" )

[3] Que tem dois sentidos, sujeito a várias interpretações, ambíguo. « Finalmente disse Cristo à Samaritana que fosse chamar seu marido, e como ela respondesse que o não tinha, equivocando o Senhor na palavra vir, que quer dizer homem e marido », Padre António Vieira, In Sermões, VII, 2, § 6, 68, p. 76. Cristo usou o equivoco com o fito (com uma estratégia), o de chamar à realidade uma pessoa vivificando, deste modo a sua consciência... fazendo-a ver; provocou o repor (renascer) dum ser.

[4] E qual em nós é o outro se não aquele que em nós recorre d'acordo com o momento e a necessidade.

[5] D. Sebastus conforme consta no seu (?) túmulo no Mosteiro dos Jerónimos, ou D. Sebastião, como consta nos documentos históricos (como quiserdes), morreu caindo com ele a nação num nevoeiro.

[6] Algumas passagens bíblicas em que outros personagens, para além de Jesus, foram e são considerados cristo (messias = ungido). Aarão, como sumo sacerdote: Levítico 4: 3-5 e 16; 8:12. Samuel como vidente: I Samuel 2:35. Saúl, David, e Zedequias, como reis: I Samuel 12:3, 16: 12,13, 26:8-11, II Samuel 1: 13-16, 22:51e Lamentações 4:20. Elias, vidente, unge Eliseu como seu vidente sucessor I Reis 19: 16. Unção de profetas denotado pelo paralelismo constante no salmo 105, em especial pelo vs. 15.

[7] Irregular e... por método. Bom, nisto estamos de acordo! Irregular por os não quererem (podia dar azar), quando tudo corria ou corre ( no bem ou no mal mas aceitável pela sociedade) e por método, quando desesperados... no caso anterior geralmente expulsavam-nos, no último até jejuavam para que os videntes aparecessem. Estes comportamentos permanecem nos dias de hoje.

[8] Assistimos a grandes discussões teológicas que se debruçavam sobre os estilos que vários livros da Bíblia contêm... dois, três ou mais exibiam o levantar de sérias preocupações e obrigatórias reflexões; o problema fulcral era que o autor não podia ser o mesmo pela variedade dos estilos num só documento e nem por um momento ouvimos alguém focar o facto universal de que o vidente não escreve mas sim os seus discípulos... dando a volta ao mundo achamos não valer a pena desenvolver este assunto; a actuação dos sábios, poetas e filósofos gregos, tal como a recolha dos escritos sobre as afirmações de Maomé que viriam a constituir O Corão, para exemplo, demonstra-o... e está mais do que focado nas versões históricas, filosóficas, literárias e científicas dos documentos contemporâneos.

[9] As vogais, como já antes afirmámos, não constam no alfabeto hebraico. Foi séculos depois do início da nossa, actual, era comum (E.C. ou D. C., como quiserdes), que acrescentaram signos a fim de manter a real pronúncia do idioma sendo estes denominados de massoréticos. (Tanárre), de Thoráh, Nabiím e haKhetobím, é o nome da Bíblia em Hebraico que e como se pode observar (pelas letras em negrito), é uma sigla que contém a ideia de como os hebreus sintetizam a divisão em estilos da sua literatura espiritual, neste caso com o fito de denominarem o conjunto dos documentos. Outro caso típico é o dos nomes dos livros da Thoráh (Pentatêuco), os quais se denominam pela primeira palavra com que o livro começa: p. ex.: Génesis denomina-se No-princípio ou, melhor traduzindo Em-princípio, isto é, Como é Usual, como quiserdes .

[10] Como tudo o que é subjectivo - que não se domina -, isto representa um possível perigo... tal como todo o desenrolar do viver, do pensar e da ciência... desastres não faltam por tudo isto, mas o desastre começou, começa e começará (isto sim, está com uma forte tónica apocalíptica), com frequência, muito antes de se pensar no acérrimo do termo.

[11] Escravos e Escravas reporta-se ao indecisos, àqueles que são materialistas, agnósticos, ateus e no fundo não sabem o que são. Apocalipse 3: 14-16.

[12] Eterno, isto é, a longo prazo. Porque tudo tem de ter um fim, não avançamos nesta matéria em função do tempo tal como os videntes denominados de apocalípticos não o fizeram... apenas lhes foi comunicado o que viria depois do (ou de um) fim... e, nada mais!

[13] Caldaico que incluindo o sumeriano, o acadiano e outras formas cuneiformes, como o ugarítico se generalizaram, durante décadas, baixo o nome de Fenício.

[14] Mendacio (latim), no entanto no caldaico significa: mendigar, pobreza e, também, deturpação, mentir, falsidade.

[15] Caim, em hebraico, significa adquirido por parte de deus; Abel e também no mesmo idioma, significa opulento, gordo no sentido de riqueza e da própria gordura, vaidoso.

[16] Afinal todos esperam o Rei, o Unificador, o Gerador do equilíbrio, o Juiz, independentemente de alguns pensarem que ele já cá esteve... que interessa... o seu surgir é que representa o garante do, ainda hoje utópico, equilíbrio que todos ansiamos.